sábado, 18 de agosto de 2012

Para qualificar o debate sobre o resultado do IDEB 2012:


Os dados do IDEB, em geral, e das taxas de desempenho (aprovação) e de rendimento nas provas padronizadas, em particular, poderiam receber outros filtros que permitiriam o aprofundamento do reconhecimento da realidade da educação paraense. Mas algumas conclusões são factíveis e destacamos algumas:

60. Temos o pior ensino médio do Brasil!
61. Temos o pior ensino médio ofertado por uma rede pública estadual de ensino do Brasil!
62. Temos uma das piores redes privadas de ensino médio do Brasil!
63. Os resultados estão piorando em relação às avaliações anteriores e aos outros estados brasileiros.
64. A avaliação dos diferentes indicadores que resultam no IDEB revela que, em geral, os diferentes estados da Federação quando têm desempenho ruim em um indicador, melhoram em outro, ou quando tem desempenho fraco em uma matéria (português ou matemática) melhoram em outra, mas no caso do Pará estamos ruins em todos os indicadores e nas duas matérias, agravando-se a situação quando consideramos apenas a rede estadual de ensino.
65. A má qualidade da educação é um problema endêmico no Pará, como já dissemos, dada a sua generalização. Em um estudo anterior (apresentado em um evento acadêmico) já havíamos verificado que outras redes de ensino (de escolas municipais, de escolas confessionais e de escolas federais) também estão, dentro de suas categorias, entre as piores do Brasil.
66. Nossos alunos não passam de ano e os que passam revelam não ter apreendido adequadamente os conteúdos que deveriam ter sido trabalhados em sala de aula.
67. Tão grave quanto estes péssimos resultados é o fato de que eles estão piorando. Aprovamos pouco e estamos aprovando menos ainda. Nossos alunos não aprenderam e estão aprendendo cada vez menos.
68. Mas quais seriam as causas deste grave quadro? Elas precisariam ser bem estudadas, mas, de antemão, não concordamos que se possa identificar uma única causa para esta situação e também discordamos de qualquer tentativa de responsabilizar os professores pela má qualidade da aprendizagem. Eles também são vítimas e fazem mais parte da solução do que do problema.
69. Temos uma hipótese de que esta situação pode ser entendida em função da falta de compromisso de nossas elites com a boa formação de seu povo. Temos uma elite que convive bem com diferentes mazelas que afligem os paraenses: trabalho escravo, pedofilia, falta de saneamento, grande concentração de terras e riquezas, assassinatos de lideranças políticas, corrupção generalizada, precariedade da saúde pública etc.
70. O desenvolvimento da região sempre foi dependente, o que tínhamos de melhor nunca ficou para o povo trabalhador, vide os ciclos da borracha, dos grandes projetos e da agroindústria. Quem ganhou e quem ganha com eles? Não foi e nem é povo o trabalhador. Neste quadro, então, o que significa não ter uma educação de qualidade?
71. Parte do problema também pode ser explicada pelos baixos investimentos na educação. Enquanto o gasto médio de um estudante de ensino médio nos países da OCDE[2] – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico – é de mais de 10 mil dólares, no Brasil este custo fica em torno de 2,5 mil. No Pará é menos de dois mil dólares.
72. Em relação ao pífio desempenho da rede estadual de ensino, que forma principalmente jovens e adultos de origem popular, deve-se destacar o caos que é a gestão da educação pública no estado. Só para citar um fato, até hoje o Governo Estadual não divulgou um projeto para o ensino médio, ou seja, a SEDUC não tem um documento orientador para a organização do trabalho pedagógico. Fica valendo apenas a boa vontade de professores, técnicos e gestores educacionais.
73. É necessária a vontade política para implementar as mudanças necessárias. A situação piorou na última avaliação e o Governo e a SEDUC têm que explicar estes resultados, fazendo a sua leitura dos dados e indicando as medidas que vão ser tomadas para a modificação do quadro deplorável verificado. O Estado tem que assumir sua responsabilidade e o Governo do estado principalmente.
74. Também os dirigentes das diferentes redes de ensino têm que explicar seus resultados tão ruins, já que os custos de uma escola privada no Pará se aproximam dos custos de boas escolas brasileiras.
75. Também a sociedade civil não pode ficar impávida frente a este desastroso quadro. É necessário maior acompanhamento e pressão sobre a gestão da coisa pública. Em um país sério estes resultados seriam objeto de uma grande agitação popular, mas parece que a má qualidade da educação não parece provocar a indignação geral da sociedade. Deveria pelo menos mobilizar organizações estudantis e de trabalhadores da educação.
76. Também outros órgãos de estado devem se manifestar. Ministério Público e Conselho Estadual de Educação, por exemplo, não podem ficar inertes e devem cumprir suas obrigações fiscalizando e cobrando melhorias na educação ofertada ao povo paraense.
77. Chegamos ao fundo do poço? Cremos que não. Diz a sabedoria popular que tudo, sempre, pode piorar. Portanto, devem-se buscar os caminhos para a qualificação da educação básica paraense. Um bom caminho para começar seria a identificação do que fazem as boas escolas. Em geral nestas há uma boa infraestrutura predial e pedagógica, valorização, formação continuada e respeito ao trabalho docente, bom ambiente de trabalho e acompanhamento da vida escolar pela sociedade e pelas famílias.
78. Os resultados do IDEB, mais que números, revelam que a juventude paraense tem seu presente prejudicado e o seu futuro ameaçado!

Por: Profº Ronaldo Marcos de Lima Araujo[3] e Profª Maria Auxiliadora Maués de Lima Araujo[4]

O texto na íntegra pode ser lido aqui http://emdialogoamazonia.blogspot.com.br/2012/08/chegamos-ao-fundo-do-poco-temos-o-pior.html#more
 
A reflexão acadêmica sobre o IDEB é importante, principalmente para relativizar as últimas declarações da SEDUC. Segundo o seu titular a responsabilidade pelo fracasso é dos professores e de seus movimentos reivindicatórios, leia-se as greves. 

Seria bom comparar o IDEB do estado com o dos municípios, perceberemos que os índices de Belém e de Ananindeua são melhores que o da SEDUC. 

É conveniente lembrar que boa parte dos professores trabalha nas duas redes de ensino, portanto, o argumento de que a culpa é dos professores é muito frágil, concordam?
Marcelo Carvalho

3 comentários:

EEEFM Prof José Valente Ribeiro disse...

Amigo estou de saco cheio dodiscruso governista que bota toda culpa nos professores. Sempre busco discutir com meus alunos e até visinhos o quadro caótico de nossas escolas que a cada ano são desmanteladas e estão tornado-se muito mais depositos de alunos do locais de aprendizagem.

Franz disse...

Concordo plenamente que esse discurso governista de que greves de professores prejudicam os alunos é conversa pra boi dormir (e faz dormir alguns burros tb). Quem prejudica estudantes é o próprio governo, através de suas políticas públicas para a (des)educação. E na época das campanhas políticas (como agora) os TOLOS acreditam nas promessas dos candidatos e VOTAM. Por isso defendo o voto NULO e consciente.

Franz disse...

Ha! ia esquecendo de te dizer, Marcelo. Votei no teu blog no TOP Blog, viu?